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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CRÍTICA - O "SHOW DA VIDA" DEVE RECOMEÇAR AOS 40

Isadora Ribeiro na famosa abertura do "Fantástico" de 1987
No último dia 5 de agosto o "Fantástico" completou quatro décadas no ar, pela Rede Globo de Televisão. Quando nasceu, em 1973, era uma novidade, um formato novo, nunca antes visto em nossas telinhas. A ideia surgiu quando nem se cogitava em tratá-lo como "revista eletrônica".

O programa surgiu a partir do casamento das centrais Globo de produção e jornalismo. Era a primeira vez que uma atração reunia reportagens com humor e números musicais. O "Show da Vida" estreou às 20h, logo após o "Programa Silvio Santos", substituindo o lacrimoso "Só o Amor Constroi". Muitos atores importantes da emissora apresentaram a revista, assim como os locutores noticiaristas e jornalistas ficavam com as reportagens e as informações do fim de semana.

A fórmula parecia ideal para um programa de TV: reunir tudo o que o povo gosta numa embalagem moderna e sofisticada. "Fantástico" inovou em uma série de coisas: introduziu o video-clipe, além dos shows exclusivos, gravados no teatro Fênix, padronizou a grande reportagem para TV, serviu de laboratório para muitos programas e humoristas, além de trazer para o Brasil muitas produções internacionais de sucesso, como algumas séries dos canais "National Geographic" e "Discovery Channel".

Durante muitos anos o dominical não teve concorrência com outros programas semelhantes. Na maior parte das vezes, seus concorrentes eram programas de auditório, como Flávio Cavalcanti e Silvio Santos, e debates esportivos. Somente depois de dez anos de vida, surgiu uma atração que se assemelhava a ele. O "Programa de Domingo" estreou na Rede Manchete em 1983, e ficou no ar até 1998, quase apagando as luzes junto com a emissora, que fechou no ano seguinte.

Seu atual concorrente foi lançado quando o "Fantástico" atingia os 21 anos. O "Domingo Espetacular" (2004) da Record nasceu para antecipar o que seria notícia à noite na Globo. A emissora da Barra Funda por muito tempo preferiu evitar o confronto direto, mas em 2010 foi à luta, e passou a incomodar a líder. Com reportagens mais longas, investindo em temas de apelo popular como celebridades e matérias policiais, a emissora de Edir Macedo consegue, a cada domingo, chamar a atenção do público, antes toda voltada para o "Show da Vida".

Há um ditado que diz que a vida começa aos 40. Pois é, o "Fantástico" precisa se renovar. Isso não é uma tarefa das mais difíceis, já que também é uma característica do programa. A urgência do momento se deve pela concorrência. Diferente do "Programa de Domingo", voltado para as classes A e B, a revista eletrônica do canal 7 paulistano conseguiu encontrar um público cativo, que garante médias acima dos dois dígitos no IBOPE. O "Domingo Espetacular" se tornou uma opção de jornalismo ao "Show da Vida". É bom deixar claro que sua liderança continua inalterada. Embora tenha sofrido com a "Casa dos Artistas"(SBT) em 2001, as quedas foram muito pontuais. Mas os índices continuam caindo ano após ano.

Neste aniversário de 40 anos, é claro que há mais para celebrar do que para lamentar. O dominical estabeleceu um padrão para as revistas eletrônicas na TV. Com ou sem bancada, com ou sem jornalistas, com ou sem música, com ou sem humor, "da idade da pedra ao homem de plástico", a atração virou uma tradição da família brasileira no final de semana. Um hábito "Fantástico".

Veja abaixo um clipe com os principais momentos do programa. Agradecimentos: LRFMaester e Extra.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

AS GÊMEAS DE TUPI E GLOBO

Eva Wilma, Carlos Zara e a dublê da atriz em 1973
Uma das obras primas da novelista Ivani Ribeiro terá dupla comemoração neste ano: "Mulheres de Areia". A trama estreou originalmente em 26 de março de 1973, pela Rede Tupi de Televisão. Vinte anos depois, a Globo produz um remake, com elementos da novela "O Espantalho"(TV Record, 1977), escrita pela mesma autora. O primeiro capítulo da nova versão foi ao ar em 1º de fevereiro de 1993, com Glória Pires interpretando as gêmeas Ruth e Raquel. As irmãs litorâneas foram vividas por Eva Wilma nos anos 1970.

Duas mulheres lindas, de aparência absolutamente idêntica mas de personalidades totalmente contrárias, e um só amor: o empresário Marcos Assunção (Carlos Zara na Tupi, e Guilherme Fontes na Globo). Enquanto Ruth é doce, amável, compreensiva e ama de verdade o jovem milionário, Raquel é fria, má, egoísta e é realmente apaixonada pelo dinheiro do rapaz. A ambiciosa moça enfrenta tudo e todos, inclusive sua bondosa irmã e o pai de Marcos, o prepotente Virgílio Assunção (Em 1973 Cláudio Correa e Castro e em 1993 Raul Cortez).

Guilherme Fontes e Glória Pires estrelaram versão de 1993
As gêmeas sofrem um acidente em alto mar, e Raquel é dada como morta. Ruth ocupa seu lugar para não ver jovem viúvo triste pela morte da esposa, já que acreditava que Marcos de fato gostava da vilã, e também desfrutar um pouco do seu amor. Mas a gêmea má está mais viva do que nunca, e quer vingança contra todos que estiverem no seu caminho, principalmente sua irmã, a usurpadora (calma, ainda estamos tratando de Ivani Ribeiro)!!!


"Rutinha" ganha prêmio

Marcos Frota viveu o escultor apaixonado



Merece destaque o personagem Tonho da Lua, um rapaz com deficiência mental, que tinha duas paixões na vida: esculpir mulheres na areia da praia e sua protetora Ruth, que o defendia de Raquel. Quem deu vida ao Tonho da primeira versão foi Gianfrancesco Guarnieri. O ator Marcos Frota interpretou o escultor nos anos 1990. No final da história, mesmo com as tentativas da gêmea materialista de separar sua irmã de Marcos, o casal termina junto, e a víbora morre num acidente de carro. Vaso ruim é difícil de quebrar, mas quebra!!!

Tanto Eva quanto Glória tiveram que trabalhar pelo menos 4 vezes a mais do que qualquer ator na novela. Elas viveram as gêmeas, Ruth se passando por Raquel e vice-versa! Quando as irmãs apareciam juntas, suas cenas eram sempre mais complicadas e demoradas para gravar. Em 1973, a técnica era o cartão. Com a câmera travada, tapava-se com um cartão preto metade da lente, e gravava somente um lado da cena, com apenas uma personagem. Depois cobria-se o lado contrário da lente, para captar a outra protagonista. O trabalho maior era do editor de VT para montar a cena completa. A tecnologia ajudou um pouquinho, na versão global. Glória gravava usando uma tela azul de fundo que, na edição, era substituída pela sua imagem gravada antes. É o chamado Chroma key (cor chave), técnica muito usada em TV pela previsão do tempo dos telejornais.

Curiosidades:

  • As duas artistas que protagonizaram "Mulheres de Areia" ganharam, entre outros, o Troféu Imprensa de melhor atriz. Em 1973, Regina Duarte foi eleita pela votação dos jornalista pelo papel de Cecília em "Carinhoso" (TV Globo, 1973), mas deu seu prêmio para Eva Wilma como reconhecimento pelo trabalho pioneiro na TV;
  • A trilha sonora da novela da Tupi foi um sucesso de vendas, porém os temas de alguns  personagens como Alaor e Raquel (cantado por Elis Regina) não foram incluídos no disco;
  • Infelizmente restaram poucos capítulos completos do folhetim de 1973. Dos 253 produzidos pela emissora associada, 21 se encontram na Cinemateca Brasileira;
  • A história de Ivani Ribeiro rompeu fronteiras, e foi sucesso até na Rússia! Quando chegou a  eleição de lá, para impedir que as pessoas viajassem no dia do pleito, um feriado, o governo russo programou a exibição do último capítulo da trama para o dia da votação;
  • O remake global foi reapresentado duas vezes, em 1996 e 2011.
  • Em cenas onde Ruth e Raquel contracenavam, Glória gravava primeiro como Ruth. O profissionalismo e atenção da atriz foram fundamentais para uma continuidade e edição perfeitas das cenas.
Vamos conferir a primeira abertura, cenas da primeira versão, a abertura da Globo e cenas da produção de 1993. Agradecimentos: Victor Santos, Marcio Uchôa, Elizeubonitao, e TV Globo.








quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ODORICO: QUATRO DÉCADAS DO MAIS AMADO

O personagem mais famoso de Paulo Gracindo
Nunca o Brasil foi tão bem representado na televisão. Hoje, a estreia da novela "O Bem Amado" (TV Globo) completa 40 anos. Uma das mais lembradas obras do dramaturgo Dias Gomes.

Inspirada na peça "Odorico, o Bem Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte" (1962), escrita pelo mesmo novelista e censurada pelo regime militar, a trama global das 22h era ambientada na fictícia Sucupira. Esse município baiano refletia a nação brasileira que os militares queriam esconder.

O folhetim fugiu da estrutura clássica, cuja história principal é o amor impossível de um jovem casal. Seu protagonista era o prefeito da cidade do litoral da Bahia, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Demagogo, populista e corrupto, o político amado pela população chegou ao poder prometendo a construção de um cemitério. Os moradores de Sucupira tinham que enterrar seus mortos no município vizinho.

Ao tomar posse e cumprir sua principal meta de campanha, começa a espera do prefeito pelo primeiro defunto que vai inaugurar a obra. Mas ninguém na cidade morre, nem mesmo um suicida famoso no local topou estrear sua cova. Para não perder a popularidade entre seus eleitores, Odorico resolve contratar o matador Zeca Diabo (Lima Duarte) para dar fim à vida de alguém. O problema é que o assassino redimiu-se, e não comete mais crimes.

Os tipos de Sucupira

As Cajazeira: solteironas e "moralistas"
Não podemos esquecer de figuras antológicas desta novela, como o puxa-saco oficial e secretário do prefeito, Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz), as irmãs Cajazeira Doroteia (Ida Gomes), Dulcineia (Dorinha Durval) e Judiceia (Dirce Migliaccio), o pescador Zelão das Asas (Milton Gonçalves) empenhado em construir suas próprias asas para voar, o jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella) que fazia oposição ao prefeito em seu jornal "A Trombeta", e muitos outros.

Odorico era mulherengo, e todas as noites aparecia na casa das solteironas Cajazeira para tomar um famoso "licor de Jenipapo". As irmãs, defensoras públicas da moral e dos bons costumes da cidade, não resistiam às investidas do assanhado político.

O secretário colecionador de borboletas
Mesmo em tempos de censura, Dias Gomes sempre criticou a política brasileira, e nunca deixou de falar em atualidades. Durante a exibição de "O Bem Amado", explodiu na imprensa mundial o caso Watergate, um esquema de espionagem que derrubou o então presidente dos EUA, Richard Nixon. O prefeito baiano também protagonizou caso semelhante, o "Sucupiragate". Paraguaçu foi acusado de instalar microfones ocultos no confessionário da igreja para descobrir as intimidades dos moradores da cidade. A armação foi denunciada por Dirceu Borboleta, que colhendo as confissões descobriu que Odorico era o verdadeiro pai de seu filho com Dulcineia, sua esposa.

O "inauguramento" do cemitério

O figurino de Zeca foi criado
pelo ator
O brilhantismo de Paulo Gracindo não se resume apenas a "dar corpo" ao personagem. São de sua autoria alguns dos eufemismos, neologismos e outras barbaridades gramaticais, ditas pelo prefeito falastrão: "Pra frentemente, pra trasmente", "deverasmente", "a imprensa escrita, falada e televisada", e o clássico "botando de lado os entretantos e partindo pros finalmentes".

Quem inaugura o cemitério é o próprio Odorico, já no final da trama, assassinado por Zeca Diabo. O matador descobre que foi ele o responsável por uma falsa acusação que o levou para a cadeia. "O Bem Amado", além de ser a primeira novela colorida da TV brasileira, também marca o começo da exportação de novelas para outros países. Até então, apenas os textos eram vendidos para emissoras estrangeiras. O folhetim de Dias Gomes foi exibido em quase toda a América Latina, Estados Unidos e Portugal. Foram 30 países que acompanharam o dia a dia de Sucupira.

Curiosidades:

  • Tecnologia nova para os técnicos da Globo, os profissionais enfrentaram diversos problemas com as câmeras em cores. Em certa cena, Ida Gomes teve que maquiar suas pernas muito brancas, para não "saturar" a imagem. Emiliano Queiroz não pode usar seus óculos, devido ao reflexo de suas lentes. Os cenários, figurinos e até mesmo cabelos de alguns atores, abusavam dos tons mais fortes, mas havia certo contraste com cores mais suaves;
  • As gravações externas eram realizadas em Sepetiba, zona oeste do Rio. Os atores eram levados de ônibus do Jardim Botânico, onde fica a sede da emissora, até a locação. Lá foi alugada uma casa que servia de camarim para o elenco;
  • A trilha sonora nacional da trama foi composta especialmente para a novela, por Toquinho e Vinicius de Moraes. O tema de abertura original era "Paiol de Pólvora", mas foi proibido pelos militares por causa do verso "Estamos sentados em um paiol de pólvora".
  • Comunista declarado, Dias Gomes era considerado subversivo pela ditadura da época, portanto uma "carta marcada" pela Censura Federal. A história de Odorico Paraguaçu teve 37 dos seus 178 capítulos proibidos de ir ao ar na íntegra. As palavras "coronel" e "capitão" foram cortadas. Em reportagem ao UOL, o doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela USP, Mauro Alencar, contou que o capítulo 115, por exemplo, teve 14 páginas inteiramente censuradas. Um capítulo de novela tem aproximadamente entre 22 e 32 páginas;
  • A emissora realizou um compacto da novela em 1977, para ganhar tempo, já que "Despedida de Casado", de Walter Jorge Durst, foi vetada pelos militares. Entre 1980 e 1984, "O Bem Amado" voltou à telinha da Globo como uma série. Para isso, foi necessário que Odorico ressuscitasse do descanso eterno;
  • Em 2010, Sucupira foi para a telona, com Marco Nanini na pele do inesquecível prefeito e José Wilker como o matador arrependido. No ano passado, a Globo Marcas lançou um box com 10 DVDs, contendo quase 36 horas remasterizadas da novela de 1973, além de extras com entrevistas exclusivas.
Vamos conferir uma cena de um dos famosos e inflamados discursos de Odorico, e a abertura da novela. Fontes: Memória Globo, Guia Ilustrado TV Globo e UOL. Agradecimentos: Emanunes, Lucio Enrique e TV Globo.